O sociólogo espanhol Manuel Castells (nascido em 1942) é um dos pensadores mais influentes para a compreensão da sociedade contemporânea. Professor em universidades como Berkeley, Oxford e Cambridge, Castells dedicou-se a estudar as transformações sociopolíticas e a evolução da "Era da Informação", resultando em sua obra-prima: a trilogia "A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura" , composta por "A Sociedade em Rede" (1996), "O Poder da Identidade" (1997) e "Fim de Milênio" (1998).
a) A Sociedade em Rede
Para Castells, a característica estruturante da nova sociedade é sua organização em redes. As redes sempre existiram na história da humanidade, mas as novas tecnologias de informação e comunicação permitiram, pela primeira vez, que elas operassem como a forma dominante de organização social, superando as limitações de tempo e espaço .
"A sociedade em rede é uma estrutura social, que pauta relações de produção, consumo e experiência, para além das variáveis já enumeradas. As redes sociais são transportadas para essas plataformas, sendo já seculares, cujo lastro se evidencia na história política, social, económica e cultural da humanidade. As novas tecnologias permitem uma coordenação diferenciada, que esvai a importância do conceito do tempo" .
Nessa estrutura, a economia torna-se global e coordenada em tempo real, articulando diferentes variáveis através das redes de informação.
b) O Espaço dos Fluxos e o Tempo Atemporal
Castells propõe dois conceitos fundamentais para entender a nova dinâmica social:
Espaço dos Fluxos: Refere-se à organização material e imaterial das práticas sociais que funcionam através de fluxos (de informação, capital, tecnologia, imagens, sons e símbolos). As redes globais de informação criam um novo espaço que não depende da contiguidade territorial, mas da conexão entre nós estratégicos.
Tempo Atemporal: É a nova percepção temporal criada pelas tecnologias da informação, onde os processos podem ser comprimidos, simultâneos ou sequenciais sem depender do ritmo biológico ou cronológico tradicional. É o "tempo sem tempo" das redes globais.
c) A Virtualidade Real
Castells analisa os meios de comunicação e as tecnologias em rede como produtoras de uma nova cultura: a da virtualidade real. Não se trata de uma realidade falsa ou imaginária, mas de um sistema onde a própria realidade é capturada e imersa em um ambiente virtual, tornando-se uma experiência plena e significativa para os indivíduos.
Um aspecto importante do pensamento de Castells é sua preocupação com as desigualdades. Embora a difusão de tecnologias como os smartphones tenha ampliado massivamente o acesso à internet (ele estima que, com as novas gerações, o acesso se torne praticamente universal), o sociólogo alerta que a exclusão não é apenas técnica, mas cognitiva e educacional.
Em entrevista ao Fronteiras do Pensamento, Castells afirma:
"A imensa maioria dos brasileiros tem acesso à internet. O que eles não têm é internet instalada em sua casa, mas têm internet na escola, nos cibercafés, em seus smartphones. [...] A chamada brecha digital está praticamente superada. Ela é principalmente uma brecha de idade. Quando a minha geração desaparecer, o acesso será universal. O problema é a capacidade de atuar através da internet, que depende, principalmente, do nível educativo e cultural das pessoas".
Sua conclusão é contundente: "Um país educado com internet progride. Um país sem educação utiliza a internet para fazer 'estupidez'. Isso a internet não pode resolver, isso só pode ser resolvido pelo sistema educacional"