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A mercantilização da identidade: pessoas como produtos

4. A mercantilização da identidade: pessoas como produtos

Quando falamos de mercantilização da identidade, nomeamos um fenômeno que Qualmann (2011) já descrevia com todas as letras: na cultura digital contemporânea, a pessoa torna-se, em parte, um produto — um produto cuja imagem é administrada, otimizada e exibida em plataformas que se apropriam do nosso comportamento de consumo para alimentar modelos de negócio. Castells (2007, vol. 2) chama atenção para o fato de que o conflito entre identidade legitimadora e identidade-projeto se torna ainda mais agudo em um contexto no qual a visibilidade midiática é, simultaneamente, recurso e armadilha: ela concede pertencimento mas também cobra conformidade.

Bauman (2004) é contundente ao afirmar que, em uma modernidade líquida, o que deveria ser fim em si mesmo — viver relações significativas, cultivar projetos de longo prazo, proteger vínculos — torna-se meio para manter a visibilidade e a sensação de relevância. O resultado é um paradoxo visceral: quanto mais conectados, mais solitários nos sentimos — exatamente porque a conexão por tela tende a substituir, e não apenas complementar, as conexões densas que sustentam a vida interior.

Sassen (2010) e Giddens (2000) ajudam a problematizar essa mercantilização em escala global. A lógica de plataforma que mercantiliza nossas identidades opera, hoje, com baixo custo regulatório em muitos países, com transferências de dados que cruzam continentes sem freios efetivos e com uma opacidade algorítmica que torna quase impossível, para o usuário comum, saber exatamente o que acontece com suas pegadas digitais. Daí a importância da educação midiática e informacional, exatamente o que nossa disciplina procura construir.

5. Cultura digital, sala de aula e pedagogia da atenção

Que consequências tiramos disso para a sala de aula? Lévy (1999; 2004) nos dá uma pista estrutural: o ciberespaço reconfigura as relações entre humanos, relações entre humanos e máquinas e relações entre humanos e o mundo. A sala de aula, hoje, é atravessada por essas três reconfigurações. Os alunos acessam informação em tempo real; constroem conhecimento em plataformas colaborativas; produzem conteúdo que rivaliza, em audiência, com o produzido por grandes mídias. Diante disso, o que a escola ainda tem de insubstituível?

Castells (2003) sugere que a escola continua insubstituível em pelo menos quatro frentes: (a) ensinar a ler o mundo, não apenas a ler palavras; (b) oferecer tempo e ambiente para perguntas lentas, sem a pressão da lógica de notificação; (c) construir comunidade heterogênea — com pessoas diferentes, com corpos presentes, com conversas que não cabem em 280 caracteres; (d) garantir acesso ao conhecimento certificado, lapidado historicamente.

Qualmann (2011) acrescenta, ainda, que a cultura digital exige, do educador, uma pedagogia da atenção. Saber reduzir voluntariamente o ruído, escolher fontes, ler em profundidade e construir sínteses pessoais são competências que, na cultura de conteúdos curtos, precisam ser ensinadas com intencionalidade. É aí que esta aula encontra o restante da nossa disciplina — uma das chaves que organiza todo o semestre é justamente aprender a estar atento, presente e crítico diante do fluxo informacional contemporâneo.

6. Conversa aberta — para refletirmos juntos

Para fechar a parte expositiva, três perguntas para vocês levarem ao fórum desta semana. Primeira: como minha identidade tem sido construída pelo que consumo e pelo que publico online, e quanto disso é escolha minha e quanto é induzido pelos mecanismos algorítmicos que já discutimos na Aula 5? Segunda: que estratégias éticas de consumo digital podemos adotar — individualmente, e como coletividade — para resistir à mercantilização da identidade? Terceira: que papel a escola e a universidade ainda têm, em um mundo onde a atenção é disputada segundo a lógica de Bauman, Qualmann e Castells?

Lembrem-se: identidade não é dado, é construído. Cultura digital não é destino, é cenário de luta, é campo de possibilidade. O que vocês fazem, hoje, com a sua atenção, com a sua imagem e com os seus afetos é parte constitutiva do que vocês estão se tornando — e, portanto, é profundamente educativo. Até a próxima!

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Z. Amor líquido. SP: Jorge Zahar, 2004.

BAUMAN, Z. Vida Para Consumo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

CASTELLS, M. A Galáxia da Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

CASTELLS, M. A Sociedade em Rede: A era da informação, volume 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007, 10ª. Edição.

CASTELLS, M. O Poder da Identidade: A era da informação, volume 2. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007, 10ª. Edição.

GIDDENS, A. Mundo em Descontrole: O que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2000.

LÈVY, P. As tecnologias da inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2004.

LÈVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

PARISHER, E. O Filtro Invisível: O que a internet está escondendo de você. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012.

QUALMANN, E. Socialnomics. São Paulo: Saraiva, 2011.

SASSEN, S. Sociologia da Globalização. Porto Alegre: Artmed, 2010.