Ir para o conteúdo principal
Página

Desafios pedagógicos: ensinar e aprender na era da IA generativa

4. Desafios pedagógicos: ensinar e aprender na era da IA generativa

Passemos da ética à pedagogia. A literatura da disciplina nos dá uma pista preciosa: Gee (2019) mostrou, estudando videogames, que bons ambientes de aprendizagem são aqueles em que os desafios são graduais, o retorno é imediato e o erro é parte do processo. A IA generativa pode ser lida como uma tentativa de produzir essa adaptação infinita: um tutor disponível a qualquer hora, capaz de reformular a explicação quantas vezes forem necessárias, ajustando nível, ritmo e exemplo ao estudante concreto. Nessa face, a tecnologia dialoga com a melhor tradição da personalização pedagógica — e explica o entusiasmo de tantos educadores.

Há, porém, uma face sombria: a terceirização cognitiva. Se o sistema resolve, resume, redige e responde, o esforço de elaboração — exatamente o que produz conhecimento, como insistimos desde a Aula 1 — pode ser inteiramente delegado. O resultado é o que poderíamos chamar de estudante espectador: alguém que assiste a performances de conhecimento sem construí-las. Tapscott (2009) celebrava a geração digital como ativa e participativa; o risco contemporâneo é uma nova passividade, mais sofisticada, mediada por assistentes que fazem por nós o que deveríamos fazer conosco mesmos.

A resposta pedagógica à altura desse quadro não é o binômio proibir ou liberar. É redesenhar as tarefas e a avaliação para que exijam o que a máquina não entrega: o percurso, a justificativa, a relação com a experiência concreta, a responsabilidade pelo dito. E é instalar, como conteúdo explícito do currículo, o letramento em IA: entender o que o sistema faz, de onde vem seu treino, quais são seus limites estatísticos, quando confiá-lo e quando verificá-lo. O professor não sai de cena — muda de lugar: de transmissor de informação para curador e mediador das mediações, inclusive das artificiais.

5. O critério que atravessa a disciplina: informação, conhecimento, formação

Vejam, esta aula  reencontra o fio que costuramos desde o início do semestre. Informações são os fragmentos disponíveis — hoje, abundantes como nunca e, com a IA generativa, também sintetizáveis como nunca. Conhecimento é a informação elaborada: contextualizada, relacionada a outras informações, validada, incorporada a esquemas de compreensão. Formação, por fim, é o conhecimento convertido em autonomia, critério e conduta. A tríade — que trabalhamos explicitamente na aula presencial de 15/09 — é a nossa bússola diante da IA.

Aplicada à tecnologia de hoje, a tríade ilumina o essencial: a IA entrega informação com fluência inédita, mas conhecimento e formação continuam exigindo elaboração humana — pergunta, estranhamento, verificação, diálogo, tempo. Lévy (1999) descrevia a cibercultura como o encontro de um novo espaço de comunicação com um novo modo de construir saberes em colaboração; nada na IA generativa dispensa esse trabalho coletivo de construção — ela apenas o torna mais urgente, porque torna mais tentadora a sua abreviação. Bauman (2008) nos ensinou a desconfiar dos atalhos prometidos pelo consumo: o conhecimento instantâneo é, nesse sentido, mais um objeto da vida para consumo — disponível, descartável e insatisfatório.

6. Conversa aberta — para refletirmos juntos

Para concluir a parte expositiva da aula, três perguntas. Primeira: que usos de IA generativa já faço no meu estudo ou no meu trabalho — e com que critérios, se é que os há, venho avaliando as respostas recebidas? Segunda: que limites éticos eu estabeleceria para o uso dessas ferramentas na educação, e quem deveria fiscalizá-los? Terceira: o que, na formação humana, me parece intransferível à máquina — e por quê?

Lembrem-se: a Inteligência Artificial pode ser lida como a mais ambiciosa das tecnologias da inteligência — ou como a mais eficiente máquina da terceirização do pensamento. A diferença entre uma leitura e outra não está no aparelho: está na mediação pedagógica que o acompanha. Construam, com afeto e rigor, essa mediação — ela é, no fundo, o que esta disciplina inteira veio ensinar.

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Z. Amor líquido. SP: Jorge Zahar, 2004.

BAUMAN, Z. Vida Para Consumo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

CASTELLS, M. A Galáxia da Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

CASTELLS, M. A Sociedade em Rede: A era da informação, volume 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007, 10ª. Edição.

CASTELLS, M. O Poder da Identidade: A era da informação, volume 2. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007, 10ª. Edição.

GEE, J. P. O que os videogames têm a nos ensinar sobre aprendizagem e alfabetismo. 2. ed. São Paulo: Ed. Parábola, 2019.

GIDDENS, A. Mundo em Descontrole: O que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2000.

LÈVY, P. As tecnologias da inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2004.

LÈVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

PARISHER, E. O Filtro Invisível: O que a internet está escondendo de você. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012.

QUALMANN, E. Socialnomics. São Paulo: Saraiva, 2011.

SASSEN, S. Sociologia da Globalização. Porto Alegre: Artmed, 2010.

TAPSCOTT, D. A Hora e a Vez da Geração Digital. Rio de Janeiro: Agir, 2009.