Enquanto Anthony Giddens concentra sua análise nos processos subjetivos e reflexivos da globalização, a socióloga e economista Saskia Sassen propõe um deslocamento radical de perspectiva. Para Sassen (1991; 2006), grande parte da literatura sobre globalização sofre de um viés desmaterializante: tende a tratar os fluxos globais de informação e capital como se operassem em um espaço virtual, independente de lugares físicos concretos. Contra essa tendência, Sassen argumenta que a globalização é profundamente territorial e material – ou seja, depende de locais muito específicos, com infraestrutura densa, concentração de poder econômico e dinâmicas urbanas singulares. O ponto de partida de sua teoria é o conceito de cidade global, que ela desenvolveu a partir de estudos empíricos detalhados sobre Nova York, Londres e Tóquio, posteriormente estendidos a outras metrópoles como São Paulo, Mumbai, Xangai e Paris.
A escolha das cidades como unidade de análise não é aleatória. Sassen (1991, introdução, paráfrase) critica a visão que toma o Estado-nação como o único ator relevante da globalização – seja como vítima (perda de soberania) ou como protagonista (negociador de acordos). Para ela, as cidades globais são espaços estratégicos onde as dinâmicas transnacionais se materializam de forma especialmente intensa e contraditória. São nelas que se localizam as sedes das maiores corporações financeiras, os escritórios de advocacia internacional, as bolsas de valores, os centros de mídia global (redações da CNN, BBC, GloboNews), os centros de processamento de dados das grandes empresas de tecnologia e as infraestruturas críticas de telecomunicações. Em outras palavras, a chamada "economia do conhecimento" não está no ar; está em Manhattan, na City de Londres, em Shibuya, na Faria Lima. Sassen chama atenção para o fato de que mesmo serviços digitais – como streaming, computação em nuvem e redes sociais – dependem de uma cadeia material localizada: cabos submarinos que chegam a pontos específicos do litoral, centros de dados que consomem energia e água, e centros de atendimento distribuídos em territórios periféricos.
A primeira grande contribuição de Sassen é a caracterização da cidade global como um espaço de contradições estruturais. Por um lado, essas cidades concentram a riqueza e o poder da economia globalizada: nelas, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita pode ser várias vezes superior ao do restante do país, os preços dos imóveis atingem patamares astronômicos e a oferta de serviços de luxo é incomparável. Por outro lado, exatamente essas mesmas cidades abrigam bolsões de pobreza extrema, trabalho informal, moradias precárias, imigração indocumentada e segregação racial e étnica. Sassen (1991, cap. 5, paráfrase) argumenta que essa dualidade não é um acidente ou uma falha de planejamento urbano, mas sim uma característica sistêmica da globalização: a economia globalizada precisa de trabalhadores mal pagos e precarizados (entregadores de aplicativo, faxineiros, seguranças, motoristas, cuidadores) para sustentar as camadas altamente remuneradas (banqueiros, advogados, consultores, tecnólogos). Essa dependência funcional da desigualdade gera tensões sociais crônicas, que frequentemente explodem em manifestações, ocupações, greves e conflitos urbanos.
A cidade global é também o local de disputas culturais intensas. Sassen observa que a globalização não homogeneíza a cultura; ao contrário, ela produz novas formas de diferenciação e resistência. Por exemplo, bairros de imigrantes em cidades globais (como a Chinatown de Nova York, a Little Italy de Boston, o Bixiga em São Paulo, o Grajaú em Salvador) tornam-se verdadeiros laboratórios de hibridismo cultural, onde tradições de origem se mesclam com influências globais e repertórios locais. Ao mesmo tempo, esses mesmos bairros são frequentemente estigmatizados como "problemáticos" pelas elites globais, que promovem processos de gentrificação (renovação urbana que expulsa populações pobres) com o argumento da revitalização econômica. Sassen (2006, cap. 4, paráfrase) analisa esses processos como lutas pelo território – conflitos que não são apenas materiais (moradia, trabalho, serviços públicos), mas também simbólicos (quem tem o direito de pertencer à cidade, quais narrativas merecem visibilidade).
O segundo conceito central da teoria de Sassen é a desnacionalização do território. Por esse termo, ela designa o processo pelo qual o espaço físico e social de um Estado-nação passa a ser moldado por atores e lógicas supranacionais, sem que isso implique necessariamente o fim do Estado. Em outras palavras, o território nacional se torna um arranjo híbrido (tradução para assemblage) onde coexistem e conflitam jurisdições paralelas: leis nacionais, tratados internacionais, códigos de conduta corporativos, protocolos de plataformas digitais, normas de organizações não governamentais globais e práticas informais de resistência. Sassen (2006, p. 45, paráfrase) sustenta que o Estado-nação não perdeu sua importância – ele continua regulando fronteiras, emitindo moeda, coibindo violência –, mas perdeu o monopólio da normatividade: cada vez mais, normas globais penetram no território nacional sem passar pelo crivo dos parlamentos locais.
Um exemplo paradigmático é o funcionamento das plataformas digitais (Google, Meta, Amazon, Uber, Airbnb). Essas empresas operam segundo termos de serviço redigidos em inglês, com base na legislação do país de sua sede (geralmente os Estados Unidos), mas seus efeitos se produzem em escala global. Quando um usuário brasileiro é banido do Facebook por um algoritmo treinado nos critérios da Primeira Emenda da Constituição americana (liberdade de expressão), ele está experimentando a desnacionalização de seu território digital. Outro exemplo é o dos direitos humanos: embora formalmente as constituições nacionais os garantam, organizações não governamentais internacionais e cortes supranacionais (como a Corte Interamericana de Direitos Humanos) intervêm cada vez mais para redefinir o que é legal ou ilegal dentro de um país. Sassen (2006, cap. 7, paráfrase) argumenta que esses processos não são necessariamente negativos – em muitos casos, eles protegem minorias e pressionam estados autoritários –, mas eles reconfiguram profundamente a relação entre território, autoridade e direitos.
Os impactos da desnacionalização sobre a cultura e a comunicação são múltiplos e complexos. Sassen (1991, cap. 8, paráfrase) oferece três contribuições fundamentais para a análise desses fenômenos. A primeira é a ideia de que a cultura não se torna imaterial na globalização. Ao contrário das visões que celebram o "ciberespaço" como um domínio puro separado do mundo físico, Sassen insiste que toda produção cultural depende de infraestruturas materiais localizadas – estúdios de gravação, salas de cinema, museus, escolas de samba, rádios comunitárias, bibliotecas, servidores de streaming, cabos de fibra ótica. Quando um funk de São Paulo viraliza no TikTok, o conteúdo é culturalmente global, mas sua produção dependeu de equipamentos materiais (celulares, computadores) e de um território específico (a favela, o estúdio caseiro). Para Sassen, ignorar essa materialidade é aderir a uma ideologia da desterritorialização que beneficia exatamente as grandes corporações que controlam a infraestrutura.
A segunda contribuição diz respeito à comunicação digital. Sassen observa que as plataformas de mídia social, embora pareçam conectar todos globalmente, criam novas hierarquias geográficas de acesso e participação. Um adolescente em Tóquio ou Seul tem acesso a velocidades de conexão, dispositivos de última geração e conteúdos em sua própria língua; um adolescente em uma periferia de Manaus ou em uma vila rural da Índia enfrenta conexões instáveis, dados caros e conteúdos majoritariamente em inglês ou chinês. Além disso, a moderação de conteúdo é feita por trabalhadores terceirizados em países de baixo salário (Filipinas, Quênia, Índia), que passam horas analisando imagens violentas ou discurso de ódio – um tipo de trabalho emocional e cognitivo que raramente é visível para os usuários finais. Sassen (2006, p. 298, paráfrase) chama atenção para essa materialidade oculta da comunicação global, que é ao mesmo tempo condição de possibilidade e fonte de desigualdade.
A terceira contribuição – e talvez a mais inspiradora para movimentos culturais de resistência – é o conceito de contrageografias. Por contrageografias, Sassen designa práticas, redes e movimentos que utilizam ferramentas e fluxos globais para fortalecer resistências locais contra a homogeneização cultural e econômica. Exemplos abundam: coletivos de cineastas indígenas que distribuem filmes via plataformas de streaming para denunciar violações de direitos; ocupações urbanas que usam WhatsApp e Telegram para organizar mutirões, hortas comunitárias e feiras de troca; ativistas climáticas que combinam protestos presenciais com campanhas virais no Twitter/X; escolas de samba periféricas que financiam desfiles por vaquinhas online. Em todos esses casos, o que está em jogo é uma apropriação subalterna das redes globais – ou seja, o uso da infraestrutura da globalização para fins que não são os previstos pelo capital transnacional. Para Sassen, as contrageografias demonstram que a globalização cultural não é uma via de mão única, mas um campo de batalha onde diferentes projetos de sociedade disputam a hegemonia. Longe de serem vítimas passivas das neuroses da informação, muitos atores locais estão desenvolvendo estratégias coletivas para navegar, resistir e até mesmo transformar os fluxos globais de informação, criando assim formas alternativas de pertencimento, comunicação e ação política.