Nas aulas anteriores, conversamos com Manuel Castells sobre a sociedade em rede e com Pierre Lévy sobre a cibercultura e as tecnologias da inteligência. Vistos em conjunto, esses dois autores nos mostraram que a internet não é apenas um suporte técnico: ela reconfigura formas de pensar, sentir, trabalhar, aprender e se relacionar. Essa constatação, porém, abre uma nova pergunta: se a rede é tão poderosa para democratizar o acesso à informação, por que, na prática, parece que cada um de nós enxerga uma internet diferente?
É exatamente nesse ponto que entra o autor que vai nos acompanhar hoje: o norte-americano Eli Pariser. Em 2011, em uma palestra emblemática no TED, intitulada Beware online filter bubbles (em português, Cuidado com os filtros-bolha online), Pariser cunhou um termo que, desde então, entrou para o vocabulário crítico das tecnologias digitais: filter bubble, isto é, a bolha de filtro ou, na tradução brasileira mais corrente, a bolha informacional. Dois anos depois, em 2012, ele publicou o livro The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You (em português, O Filtro Invisível: o que a internet está escondendo de você), aprofundando a ideia.
O que Pariser percebeu foi algo relativamente simples, mas de consequências enormes: os grandes serviços da web — Google, Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, X (o antigo Twitter) — deixaram de mostrar o mesmo resultado para todo mundo e passaram a personalizar, individualmente, aquilo que cada usuário vê. Essa personalização, no entanto, não é neutra. Ela é orientada por algoritmos preditivos que se baseiam em uma centena de sinais: localização, cliques anteriores, tempo de leitura, idade, dispositivos usados, horário, e até o próprio comportamento de pessoas estatisticamente parecidas com você.
Imaginem comigo o seguinte cenário — e prestem atenção, porque a situação é bem brasileira. A estudante Mariana, de 22 anos, mora em Salvador, gosta de MPB e acaba de comprar um violão. Quando ela abre o YouTube, a página inicial recomenda aulas de violão, cifras de Tom Jobim, documentários sobre a música baiana e vídeos de gospel — Mariana frequenta uma igreja evangélica. Já seu colega Rafael, 24 anos, estudante de engenharia em São Paulo, vegano e aficionado por games, recebe, na mesma página inicial, tutoriais de programação, debates sobre política internacional, conteúdo vegano e lives de RPG. As duas telas são, tecnicamente, o mesmo site; mas são, na prática, dois mundos informacionais distintos.
Mariana e Rafael não foram vítimas de nenhuma censura explícita. Ninguém sentou e decidiu, com um editor humano, vamos esconder tal notícia dela. O filtro operou silenciosamente: o algoritmo previu, com base em sinais passados, aquilo que ela e ele provavelmente gostariam de ver, e entregou, com precisão cirúrgica, exatamente isso. O conteúdo desconfortável, contraditório ou desconhecido ficou do lado de fora da bolha. Pariser usa uma metáfora muito iluminadora: imagine um restaurante que decide, sem lhe perguntar, quais ingredientes do cardápio não devem ser servidos a você porque não combinam com o seu paladar. Você sai da mesa achando que viu o cardápio inteiro — mas nunca viu.
Aqui, caros estudantes, entramos em uma das preocupações centrais desta disciplina — aquela que justifica, aliás, o subtítulo Neuroses da Informação no nome do nosso curso. Se cada um vive em uma bolha feita sob medida, surge um problema formativo sério: como exercitar o pensamento crítico se os critérios e os fatos que nos chegam já chegam filtrados, ordenados pelos algoritmos, antes mesmo de nossa leitura?
Pensem comigo. O pensamento crítico, na tradição que herdamos de Kant, da Escola de Frankfurt e da pedagogia crítica de Paulo Freire, depende de três operações básicas: (a) identificar os próprios pontos cegos; (b) entrar em contato com perspectivas divergentes da nossa; e (c) reconstruir o julgamento à luz dessas perspectivas. Ora, se o filtro invisível dificulta exatamente as duas primeiras operações — ele esconde os pontos cegos e bloqueia as perspectivas divergentes — ele nos empurra, ainda que sem a intenção de ninguém, para um declínio da criticidade.
Essa é, em grande medida, a engrenagem que faz com que debates sobre política, ciência, vacinas ou mudanças climáticas se transformem, com espantosa frequência, em monólogos paralelos: cada lado fala com os seus, dentro da própria bolha, cada vez mais certo de que o outro é absurdo ou mal-intencionado.
Chegamos, neste ponto da conversa, a uma fronteira importante. Vimos até aqui o que é a bolha informacional, vimos como ela opera no cotidiano e vimos por que ela representa um desafio direto à formação crítica. A Parte 1 termina exatamente aqui: o problema está lançado. Na Parte 2 — que você encontra na próxima página desta sala virtual — vamos dar três passos adiante. Primeiro, vamos distinguir com cuidado três conceitos correlatos que muita gente confunde (bolha informacional, câmara de eco e desinformação). Depois, vamos costurar a aula de hoje com as outras aulas da disciplina, mostrando que esse conceito será uma chave de leitura para todo o semestre. Por fim, vamos abrir uma conversa final com perguntas para o fórum, apresentar duas questões de revisão com gabarito comentado e indicar a leitura e o vídeo obrigatórios desta semana.